capa da cronica escondam os esplhos.

Escondam os Espelhos.

   Quando se tem algo que admira muito não se perde a oportunidade de vê-lo e aprecia-lo… Assim eram os meus dias olhando pela janela aquelas pessoas, tão bonitas, elegantes, inteligentes, com os mais variados e importantes talentos. Possuíam belos cabelos, belos sorrisos, belas vozes. Não eram como eu.

   Eu, na verdade, almejava ser como elas.  Não cansava de observa-lás e, quando eu escolhia uma, passava o dia me imaginando no lugar daquela pessoa. Fazendo as coisas que eu imaginava que aquela pessoa fazia.

   Tinha a Professora de Ballet. Era lindíssima. Passava correndo todos os dias apressada com seu coque alto, e uma bolsa qual eu imaginava  haver coisas de bailarinas. Sempre visualizava ela fazendo exercícios na barra que eu gostaria e fazer.

  Também havia o Enfermeiro que, ao contrário da Professora de Ballet, andava calmamente vestindo branco com uma enorme mochila nas costas para o plantão. Ele emanava a calmaria que eu queria sentir em mim.

   E, sem dúvida, os que eu mais admirava eram os Cinco Amigos. Passavam a caminho da universidade sorrindo, dando gargalhadas e falando alto. Tudo parecia ser divertido para eles. Tão próximos um dos outros e felizes, a alegria que eu gostaria de ter.

   Até então aquele era o meu hobbie, meu passatempo. Observar os outros realizados já que eu não poderia ser.

   Mas certa vez, na parede ao lado da janela vi uma pequena fresta. Cheguei mais perto e quase enfiei o olho por curiosidade. Vi uma escada que descia de onde eu via.  Sem pensar duas vezes, chutei a parede falsa que eu não sabia da existência, até me dar passagem para a escada.

   Quando finalmente consegui passar, desci as escadas cuidadosamente, um tanto apreensiva olhando alguns encanamentos da casa e fiações. A escada me levou até uma sala quadrada cheia de molduras com fotos que se mexiam, fotos de uma pessoa bonita como as que eu admirava pela janela. Em completo estado de confusão mental, escolhi uma moldura para observar melhor, cheguei bem perto, e a medida em que eu me aproximava,  a pessoa alinhava seu rosto.

   Como quem vê um fantasma, dei um pulo para trás  que me levou ao chão devido ao susto que levei ao finalmente me lembrar do que eram os “espelhos”.  Me lembrei que eu havia escondido eles ali, e que aquela pessoa bonita era o meu reflexo.

   Me levantei calmamente e me observei de todos os ângulos os quais estavam posicionados os espelhos.

“Quanto tempo eu não me via…”

   Repreendendo minha ingenuidade ao pensar que meu reflexo era como uma das pessoas admiráveis, me recordei do motivo para que eu os deixasse ali.

   Dei o que pensei ser a última olhada e  decidi subir as escadas de volta para a janela.

   Já era noite e, mesmo querendo dormir, não conseguia. O pensamento sobre meu reflexo vinha durante toda a madrugada. Desci as escadas na calada da noite e acendi as luzes da sala de espelho. Comecei a brincar com eles, andava vagarosamente como o Enfermeiro, imitava o que eu achava ser passos de ballet e ria forçadamente como os Cinco Amigos.

“Eu seria uma ótima pessoa admirável…” pensei a noite toda, mas decidi não acreditar.

Continua…

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